A mediana das projeções de mercado para o IPCA de 2026 subiu de 4,92% para 4,99% no Boletim Focus divulgado em 28 de setembro, superando o teto da meta de 4,50%. No mesmo levantamento, a estimativa de crescimento do PIB recuou de 1,88% para 1,86%, a terceira queda consecutiva, enquanto a Selic seguiu projetada em 13,50% ao ano.
📌Fatos em Destaque
- A projeção de IPCA para 2026 subiu de 4,92% para 4,99%, cerca de meio ponto acima do teto da meta de 4,50%, enquanto a do PIB caiu de 1,88% para 1,86%, a terceira redução consecutiva.
- O IPCA-15 de setembro marcou 0,7% após deflação de 0,4% em agosto, levando o acumulado em 12 meses a 4,47%, movimento atribuído pelo IBGE ao fim do bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica.
- A Selic segue projetada em 13,50% ao ano para 2026 e o dólar em R$ 5,20, sinalizando que o mercado espera juro contracionista por mais tempo diante da inflação acima do teto.
IPCA de 2026 sobe a 4,99% e supera o teto da meta
Segundo o Boletim Focus divulgado pelo Banco Central em 28 de setembro de 2026, a projeção mediana para o IPCA do ano avançou de 4,92% para 4,99%, um acréscimo de 0,07 ponto percentual em apenas uma semana. A meta perseguida pelo Banco Central é de 3,00%, com intervalo de tolerância de 1,50 ponto percentual para cima, o que coloca o teto em 4,50%. A projeção atual opera, portanto, cerca de meio ponto acima do limite superior do regime de metas.
Para 2027, a mediana subiu de 4,30% para 4,31%, movimento marginal que, ainda assim, mantém a inflação projetada acima do centro da meta pelo terceiro ano consecutivo. Já a projeção para 2028 foi mantida em 3,80%, sinal de que o mercado enxerga convergência apenas no horizonte mais longo, e mesmo assim sem retorno ao centro de 3,00%. A leitura relevante não é o tamanho do ajuste semanal, mas a persistência do desvio: o mercado deixou de tratar a inflação acima da meta como acidente de percurso e passou a tratá-la como característica estrutural do ciclo.
IPCA-15 de setembro a 0,7%: o fim do bônus de Itaipu
O dado que ancora a revisão do Focus é o IPCA-15 de setembro de 2026, que registrou alta de 0,7%, revertendo a deflação de 0,4% observada em agosto. Com isso, o acumulado em 12 meses subiu de 4,24% para 4,47%, aproximando-se rapidamente do teto da meta. Segundo o IBGE, a aceleração foi impulsionada pelo fim do bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica, um choque de natureza regulatória que transfere diretamente para o orçamento das famílias um custo que antes era absorvido pelo subsídio.
Vale sublinhar a natureza desse vetor: não se trata de pressão de demanda, mas de um repasse administrativo de preço. Isso importa porque muda a leitura de política monetária. O Banco Central reage a expectativas desancoradas, e um item regulatório com efeito de primeira rodada tende a contaminar a inflação de serviços e a inércia dos reajustes contratuais. O consumidor sente no bolso; o Copom sente na curva de expectativas. É exatamente esse mecanismo que explica por que a projeção de 2026 não recua apesar do crescimento mais fraco.
PIB de 2026 recua a 1,86% em três horizontes
Do lado da atividade, o Focus trouxe revisões para baixo em todos os horizontes relevantes. A projeção de PIB para 2026 caiu de 1,88% para 1,86%, a terceira redução consecutiva e um recuo de 0,06 ponto percentual frente à projeção de quatro semanas atrás, quando o mercado ainda trabalhava com 1,92%. Para 2027, a mediana recuou de 1,43% para 1,41%. Para 2028, caiu de 1,87% para 1,83%.
A combinação é desconfortável para quem formula política econômica: inflação acima do teto e crescimento abaixo de 2% significam que o país convive com o pior dos dois mundos, sem o alívio de uma recessão que justificasse corte de juros nem o conforto de uma expansão que diluísse a pressão de preços. O governo, que precisa de crescimento para sustentar arrecadação e cumprir o arcabouço fiscal, fica sem instrumento de estímulo: não há espaço fiscal para expansão de gastos sem pressionar ainda mais a curva de juros futuros, e não há espaço monetário enquanto a inflação projetada não convergir.
Selic a 13,50% e dólar a R$ 5,20: a corda bamba do Banco Central
As expectativas de juros permaneceram ancoradas nas mesmas medianas: Selic de 13,50% ao ano ao final de 2026, 12,00% em 2027 e 10,50% em 2028. A estabilidade das projeções de juros, em contraste com a deterioração da inflação, revela a leitura do mercado sobre a função de reação do Copom: o colegiado manterá a taxa contracionista por mais tempo do que o inicialmente previsto, sacrificando o crescimento em nome da ancoragem das expectativas.
No câmbio, as projeções também ficaram estáveis: dólar a R$ 5,20 em 2026, R$ 5,28 em 2027 e R$ 5,30 em 2028. A ancoragem cambial é o principal ativo do Banco Central neste momento, porque um real mais estável reduz o repasse inflacionário de importados e ajuda a conter a contaminação dos preços administrados. O risco é o de sempre: se o prêmio de risco fiscal voltar a subir, a defesa do câmbio exige juros ainda mais altos, e a conta sobra para o investidor em renda variável e para o tomador de crédito. Nesse arranjo, os títulos pós-fixados e os atrelados à inflação tendem a capturar simultaneamente o juro alto e a correção do IPCA.
O que acompanhar: Copom, IPCA cheio de setembro e a curva de juros futuros
O próximo teste das expectativas é a divulgação do IPCA cheio de setembro, que confirmará ou não a leitura capturada pela prévia de 0,7%. Na sequência, a reunião do Copom será o evento central para calibrar o ritmo e a extensão do ciclo de juros. O mercado monitora especialmente a comunicação do colegiado sobre a natureza do choque de energia elétrica: se o Banco Central tratar o efeito de Itaipu como temporário, a curva de juros futuros pode aliviar nos vencimentos curtos; se sinalizar contaminação de expectativas, o prêmio embutido nos DIs tende a se manter elevado.
Vale registrar uma ressalva metodológica importante: o Boletim Focus é uma pesquisa de expectativas de mercado, não uma projeção oficial do Banco Central. Os números refletem a mediana das estimativas de instituições financeiras consultadas semanalmente e, por isso, funcionam como termômetro do humor da Faria Lima, não como previsão institucional. Ainda assim, é esse humor que orienta decisões de alocação, precificação de ativos e, em última instância, o custo do capital no Brasil.
📋 Histórico da Matéria
- 05/10/2026 às 12:05 BRT: Boletim Focus de 5 de outubro de 2026 eleva o IPCA de 2026 a 5,01% e reduz as projeções de PIB para 2026, 2027 e 2028, mantendo Selic em 13,50% e dólar em R$ 5,20. (IPCA 2026: projeção subiu de 4,99% para 5,01% (terceira alta consecutiva); IPCA 2027: projeção recuou de 4,31% para 4,30%)
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