Copom corta Selic para 14% e ata sinaliza ciclo de afrouxamento limitado por riscos fiscais

Copom corta Selic para 14% e ata sinaliza ciclo de afrouxamento limitado por riscos fiscais

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic em 1 ponto percentual, para 14% ao ano, em reunião realizada nos dias 5 e 6 de agosto de 2026. A ata da decisão, divulgada nesta terça-feira (11), confirma o início do ciclo de afrouxamento monetário, mas impõe um tom de cautela explícita: o colegiado avalia que os juros precisam permanecer em patamar restritivo diante de pressões inflacionárias persistentes, riscos fiscais e incertezas externas. A comunicação sugere que o espaço para novos cortes pode ser limitado.

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Por Redação Radar Finanças

Publicado em: 11/08/2026 às 17:04 BRT

A decisão: corte de 1 p.p. e manutenção do viés restritivo

O Copom reduziu a Selic de 15% para 14% ao ano, em decisão unânime. O movimento era amplamente esperado pelo mercado, mas o tom da ata surpreendeu ao reforçar que o ciclo de cortes não será automático nem linear. O comitê destacou que a inflação ao consumidor, embora em desaceleração, ainda se encontra acima do limite superior da meta de 4,50% — o IPCA acumulado em 12 meses até julho de 2026 está em 1,94%, mas a projeção mediana do Boletim Focus para o ano é de 5,02%.

O colegiado avaliou que o nível atual da taxa básica de juros segue compatível com a estratégia de convergência da inflação para a meta no horizonte relevante, mas condicionou novos cortes à evolução do cenário fiscal, do crédito direcionado e das condições externas.

Inflação desacelera, mas núcleos seguem pressionados

O IPCA de julho de 2026 registrou alta de 0,07%, ante 0,16% em junho e 0,58% em maio. A desaceleração reflete, em parte, a queda nos preços de alimentos in natura e a estabilidade dos combustíveis. No acumulado em 12 meses, o índice oficial de inflação está em 1,94%, abaixo do centro da meta de 3,00%, mas o BC alerta que a composição da inflação corrente ainda apresenta rigidez em serviços e bens industriais.

O IGP-M acumulado em 12 meses registra deflação de 1,16%, o que sinaliza pressões baixistas no atacado. Ainda assim, o Copom destacou que a inflação de serviços, mais sensível ao ciclo de atividade e ao mercado de trabalho aquecido, segue como principal fonte de preocupação.

Mercado de trabalho aquecido e crédito direcionado no radar

A ata do Copom dedicou atenção especial ao mercado de trabalho, que segue aquecido. A taxa de desemprego projetada pelo Boletim Focus para 2026 é de 5,4%, o menor patamar da série histórica. O comitê avalia que o aperto no mercado de trabalho pode gerar pressões salariais que se traduzam em inflação de serviços.

Outro ponto de atenção é o crescimento do crédito direcionado, que escapa ao aperto da política monetária convencional. O BC monitora a expansão das linhas subsidiadas como potencial fonte de estímulo adicional à demanda, o que poderia prolongar o ciclo de juros restritivos. Os juros cobrados das famílias chegam a 64% ao ano, indicando que o canal de transmissão da política monetária segue ativo, mas com heterogeneidade entre segmentos.

Cenário fiscal e dívida pública pressionam o horizonte

A dívida bruta do governo geral está projetada em 83,3% do PIB para 2026, segundo o Boletim Focus. O Copom mencionou que a trajetória fiscal é um dos principais condicionantes para a política monetária. A percepção de risco fiscal pode elevar os prêmios de risco embutidos nas taxas de juros futuros, limitando o espaço para cortes adicionais da Selic.

O câmbio de referência utilizado pelo BC na reunião foi de R$ 5,10/US$. O Boletim Focus projeta o dólar mediano em R$ 5,20/US$ para o fim de 2026. A desvalorização cambial esperada adiciona pressão inflacionária via repasse para preços de bens comercializáveis.

Cenário externo: Oriente Médio e política monetária dos EUA

O Copom destacou que o ambiente externo permanece adverso. Os conflitos no Oriente Médio elevam a incerteza sobre o preço do petróleo e as cadeias globais de suprimento. Além disso, a indefinição sobre a trajetória da política monetária nos Estados Unidos — com o Federal Reserve mantendo juros elevados por período prolongado — comprime o espaço para diferenciais de juros favoráveis ao real.

O comitê avalia que a combinação de juros americanos altos, aversão ao risco global e tensões geopolíticas pode gerar volatilidade cambial e pressionar as expectativas inflacionárias domésticas.

Boletim Focus: projeções para 2026

O Boletim Focus divulgado em 8 de agosto de 2026 consolida as seguintes medianas para o ano:

A projeção mediana para a Selic ao final de 2026 é de 13,75%, indicando que o mercado espera ao menos mais um corte de 0,25 p.p. no ciclo atual. O PIB mediano projetado é de 1,98%, compatível com um cenário de desaceleração econômica gradual.

  • Selic mediana: 13,75%
  • IPCA mediano: 5,02%
  • Câmbio mediano: R$ 5,20/US$
  • PIB mediano: 1,98%
  • Dívida bruta: 83,3% do PIB
  • Desemprego mediano: 5,4%

Perspectiva: ciclo de cortes limitado e dependente de dados

A ata do Copom sinaliza que o ciclo de afrouxamento monetário será conduzido com parcimônia. O comitê não indicou a magnitude esperada para os próximos cortes, condicionando as decisões futuras à evolução do cenário fiscal, do crédito direcionado, do mercado de trabalho e das condições externas.

A mediana do Focus para a Selic em 2026 (13,75%) sugere que o mercado incorpora apenas mais um movimento de redução no horizonte. Caso os riscos fiscais se materializem ou o cenário externo se deteriore, o Copom pode interromper o ciclo antes do previsto.

Aviso Legal & Transparência: Este conteúdo possui caráter meramente informativo e jornalístico, não constituindo análise, recomendação de investimento ou indicação de compra e venda de ativos. As decisões financeiras devem ser tomadas com base em seu próprio perfil de risco e com suporte de especialistas certificados.