Crédito para IA: mineradoras de Bitcoin buscam US$ 50 bilhões e aceitam juros de até 9%

Crédito para IA: mineradoras de Bitcoin buscam US$ 50 bilhões e aceitam juros de até 9%

A conta da reconversão para inteligência artificial na mineração de Bitcoin chegou, e o setor precisa de aproximadamente US$ 50 bilhões para concluir os projetos de infraestrutura de IA já anunciados, segundo o boletim Miner Weekly, da BlocksBridge Consulting. O custo desse dinheiro, porém, está longe de ser uniforme: a IREN pagou 6% em junho e 9% em agosto na mesma tese; o Google cobrou warrants de 5,4% do patrimônio da Cipher Digital para garantir US$ 1,4 bilhão em leasing. Entre juros que sobem e participações que se diluem, o financiamento virou a variável crítica da nova fronteira das mineradoras.

RF
🏷️ CriptoativosPor Redação Radar Finanças
Publicado em: 12/10/2026 às 14:47 BRT
✓ Fatos extraídos de fontes identificadas · Validação automática concluída

📌Fatos em Destaque

  • Setor de mineração de Bitcoin precisa de aproximadamente US$ 50 bilhões para concluir projetos de infraestrutura de IA, segundo boletim da BlocksBridge Consulting.
  • IREN captou US$ 3,65 bilhões em junho a 6% e US$ 2,4 bilhões em agosto a 9% fixos, spread de três pontos percentuais na mesma empresa em dois meses.
  • Google garantiu US$ 1,4 bilhão em obrigações de leasing da Cipher Digital em troca de warrants de 5,4% do patrimônio, precificando o risco com diluição acionária.

Os US$ 50 bilhões que a mineração ainda não fechou

O número que circula no boletim Miner Weekly, da BlocksBridge Consulting, é de aproximadamente US$ 50 bilhões. É o que a indústria de mineração de Bitcoin precisaria desembolsar para levar adiante os projetos de infraestrutura de IA já anunciados. Não se trata de expansão de capacidade de hashrate, mas de uma metamorfose de identidade: empresas que nasceram vendendo blocos validados passaram a vender espaço de data center, energia contratada e, agora, capacidade de processamento para modelos de linguagem.

O problema é que essa metamorfose exige capital que a geração de caixa da mineração, apertada desde o halving de abril de 2024, não cobre. A receita por bloco caiu, o custo de energia segue rígido e a competição por hashrate não dá trégua. O resultado é uma fila de projetos que dependem de terceiros para sair do papel, e terceiros, ao contrário do que o vocabulário de relações com investidores sugere, não são sócios generosos. São credores, e credores cobram.

  • O déficit de US$ 50 bilhões referente aos projetos de infraestrutura de IA já anunciados
  • Receita por bloco comprimida desde o halving de abril de 2024
  • Custo de energia segue rígido e competição por hashrate não dá trégua

IREN e o spread de 6% para 9%: o que os credores passaram a precificar

A IREN oferece o retrato mais nítido desse aperto. Em junho, a companhia garantiu um pacote de US$ 3,65 bilhões para financiar GPUs a uma taxa de 6%. Dois meses depois, em agosto, fechou uma captação separada de US$ 2,4 bilhões a 9% fixos. Mesma empresa, mesma narrativa de IA, spread de três pontos percentuais entre as duas operações.

A leitura cética é direta: o segundo pacote não é continuação do primeiro, mas o preço de risco que o mercado passou a exigir. Credores não estão financiando a narrativa de IA em abstrato; estão financiando ativos específicos, com colateral identificável e prazo casado com contratos de receita. Quando o colateral fica mais difícil de enxergar, a taxa sobe.

Para a estrutura de capital, o efeito é aritmético. Cada ponto percentual adicional sobre US$ 2,4 bilhões representa algo próximo de US$ 24 milhões por ano em despesa de juros, valor que sai diretamente da linha que poderia virar capex ou retorno ao acionista. Em um setor onde a margem já opera comprimida desde o halving, o custo do dinheiro deixa de ser detalhe de nota de rodapé e passa a ser variável de sobrevivência.

Google, warrants e a diluição silenciosa na Cipher Digital

O caso da Cipher Digital mostra que o pedágio do crédito nem sempre é cobrado em juros. O Google concordou em garantir US$ 1,4 bilhão em obrigações de leasing da companhia. Em troca, recebeu warrants equivalentes a 5,4% do patrimônio da Cipher. Traduzindo o eufemismo: não é parceria estratégica, é seguro com prêmio pago em participação acionária.

O acionista minoritário que entrou na tese de mineração e agora vê a empresa virar fornecedora de infraestrutura para IA descobre que parte do upside futuro foi vendida antecipadamente para destravar o financiamento. A diluição não aparece como emissão de ações; aparece como warrant, e warrants são a forma mais educada de dizer que o risco foi transferido para quem já estava na base acionária.

O dilema do ovo e da galinha: contrato âncora como pedágio de crédito

O boletim da BlocksBridge descreve credores que se tornaram mais seletivos. É um eufemismo elegante para um aperto de crédito setorial. Na prática, o financiamento passou a exigir contratos âncora com clientes de grande porte, os hyperscalers, como pré-condição. Sem cliente assinado, não há colateral; sem colateral, não há taxa de 6%.

Isso cria o dilema do ovo e da galinha: a mineradora precisa do contrato para captar e precisa do capital para construir a infraestrutura que sustenta o contrato. Quem tem balanço e histórico de entrega, como a própria IREN, a Riot Platforms, a HIVE Digital e a Cipher Digital, negocia de posição. Quem não tem, fica na fila, e a fila tem preço.

O pano de fundo não ajuda. Com o Federal Reserve mantendo os juros na faixa de 5,25% a 5,50%, o custo global do capital segue elevado, e projetos intensivos em capital são os primeiros a sentir o repasse. A seletividade dos credores não é idiossincrasia do setor cripto; é o mesmo rigor que bancos aplicam a qualquer ativo de infraestrutura em ambiente de juros altos.

O que acompanhar: balanços, covenants e a seletividade que virou pedágio

Daqui para frente, o que importa é menos a manchete e mais a nota de rodapé. Os próximos balanços das mineradoras listadas devem revelar se o custo de juros está sendo absorvido pela geração operacional ou se está sendo rolado para novas captações. Vale observar também a evolução dos covenants atrelados a esses financiamentos, porque são eles que definem quando a seletividade dos credores deixa de ser discurso e vira execução.

Do lado dos acionistas, a pergunta incômoda é quanto do valor da reconversão para IA já foi vendido em warrants, garantias e taxas. A tese de que mineradoras virariam empresas de infraestrutura digital continua de pé. O que mudou foi o preço de entrada, e ele agora é cobrado em juros de até 9% e em pedaços do capital.

Aviso Legal & Transparência: Este conteúdo possui caráter meramente informativo e jornalístico, não constituindo análise, recomendação de investimento ou indicação de compra e venda de ativos. As decisões financeiras devem ser tomadas com base em seu próprio perfil de risco e com suporte de especialistas certificados.
RF
Redação Radar Finanças
Inteligência de mercado de capitais, macroeconomia e acompanhamento de divulgações oficiais da CVM, Bacen e B3. Conheça nossa política editorial e nosso expediente.