A Circle quer entrar em cerca de 40 mercados em desenvolvimento, disse o CEO Jeremy Allaire à margem das reuniões do FMI e do Banco Mundial em Bangkok. No mesmo movimento, relatório do Bernstein aponta que a USDC passou de cerca de 40% para mais de 60% do volume ajustado de transações com stablecoins entre 2025 e 2026, superando a USDT na métrica de uso econômico.
📌Fatos em Destaque
- A Circle busca entrar em cerca de 40 mercados em desenvolvimento, segundo o CEO Jeremy Allaire, sem lista de países nem cronograma divulgados.
- A USDC subiu de cerca de 40% para mais de 60% do volume ajustado de transações com stablecoins entre 2025 e 2026, superando a USDT nessa métrica, segundo o Bernstein.
- A Circle acertou a compra da Tazapay, de Singapura, por US$ 400 milhões integralmente em ações, com conclusão prevista para 2027.
Circle mira 40 mercados em desenvolvimento sem lista de países nem cronograma
A declaração foi feita por Jeremy Allaire, CEO da Circle, à margem das reuniões do FMI e do Banco Mundial, e o recado é direto: a emissora da USDC quer entrar em cerca de 40 mercados em desenvolvimento.
A demanda que sustenta o movimento vem de regiões onde a moeda local é um problema recorrente: Sudeste Asiático, América Latina, África e Oriente Médio, praças em que a stablecoin dolarizada funciona menos como ativo especulativo e mais como conta corrente de emergência.
O detalhamento, porém, não veio. Allaire não listou quais países compõem esse conjunto de 40 mercados nem apresentou cronograma para a expansão. Em jargão de relações com investidores, isso é ‘oportunidade endereçável’; em português claro, é um número redondo sem data de entrega. A Faria Lima aprendeu a descontar esse tipo de anúncio até que apareça licença local, parceiro ou receita.
USDC salta de 40% para mais de 60% do volume ajustado e supera a USDT
O dado mais incômodo para a Tether está no relatório do Bernstein: a participação da USDC no volume ajustado de transações com stablecoins subiu de aproximadamente 40% em 2025 para mais de 60% em 2026. No recorte apresentado, a stablecoin da Circle aparece à frente da USDT em fluxo transacionado.
A distinção entre volume bruto e volume ajustado é o coração da questão. Métricas de volume em stablecoins são notoriamente infladas por arbitragem, idas e voltas entre protocolos e liquidação de derivativos, movimentos que engordam o número sem representar uso econômico final. O recorte ajustado tenta isolar o que sobra disso: pagamentos, remessas e liquidação comercial.
Se a leitura do Bernstein se sustentar, a USDC está ganhando a disputa no terreno em que a Tether costuma ancorar sua narrativa, o de moeda digital de uso cotidiano. Cabe a ressalva metodológica: o relatório não traz números de capitalização de mercado, e as duas métricas contam histórias diferentes. Liderar volume transacionado não é o mesmo que liderar estoque de tokens emitidos, e o mercado costuma confundir as duas coisas quando a confusão é conveniente.
Tazapay por US$ 400 milhões em ações: a aposta na camada de liquidação
A jogada estruturante do movimento é a aquisição da Tazapay, plataforma de pagamentos transfronteiriços sediada em Singapura, por US$ 400 milhões, integralmente em ações. A conclusão está prevista para 2027.
Pagar em papel, e não em caixa, admite duas leituras. A generosa: preserva liquidez e alinha o vendedor ao valor de longo prazo do comprador. A cética: transfere o risco da tese para quem recebe as ações e dilui o acionista existente sem passar pelo crivo de um desembolso imediato.
Em ambos os casos, o sinal estratégico é o mesmo. A Circle não quer ser apenas a emissora de um token; quer ser a camada de liquidação por onde o comércio internacional passa, e Singapura é a porta de entrada natural para o Sudeste Asiático. O timing do anúncio não é acidental: maior clareza regulatória nos Estados Unidos e o avanço da tokenização de ativos são apontados pelo Bernstein como catalisadores da próxima fase do setor. Traduzindo: a Circle tenta converter a janela regulatória em infraestrutura antes que a concorrência faça o mesmo.
O que monitorar: fechamento da Tazapay, licenças locais e a resposta da Tether
O primeiro marco verificável é o fechamento da aquisição da Tazapay, previsto para 2027 e sujeito a aprovações regulatórias. Até lá, o anúncio dos 40 mercados permanece uma intenção, não um plano com datas.
O segundo é a reação competitiva. A Tether não costuma assistir passivamente à perda de participação em volume, e a resposta pode vir em preço, em parcerias locais ou em novas frentes de liquidação. O terceiro é o efeito sobre as remessas tradicionais, operadores como Western Union e Wise, que passam a competir com um trilho de liquidação cujo custo marginal tende a zero.
Para o investidor, a pergunta prática é se a métrica de volume ajustado se converte em receita recorrente para a Circle ou se permanece um belo gráfico de participação. Volume transacionado é vaidade até virar margem. É essa a ponte que o mercado vai cobrar nos próximos balanços.
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