A China proíbe criptomoedas desde setembro de 2021, o que não impediu que o país construísse uma das economias paralelas de stablecoin mais movimentadas do planeta. Segundo relatório da Chainalysis, empresa de análise on-chain, o número de carteiras únicas de stablecoin em negociação P2P no território chinês cresceu 43 vezes entre o primeiro trimestre de 2024 e o segundo trimestre de 2026. A proibição mudou o canal, não a demanda. O contraste regional escancara o resto da história: a Coreia do Sul, que regula, tributa e fiscaliza o setor, movimenta US$ 449,1 bilhões, cerca de 2,6 vezes a cifra chinesa estimada, enquanto suas exchanges locais assistem ao lucro operacional derreter 78%.
📌Fatos em Destaque
- Carteiras únicas de stablecoin em P2P na China cresceram 43 vezes entre o primeiro trimestre de 2024 e o segundo trimestre de 2026, com US$ 104,1 bilhões movimentados em autocustódia entre julho de 2025 e junho de 2026.
- Cada stablecoin girou 33,2 vezes por ano na China, mais de três vezes a média global de 9,3, sinal de uso transacional intensivo em vez de reserva de valor.
- A Coreia do Sul lidera o Leste Asiático com US$ 449,1 bilhões em volume, alta de 12,3% no ano até junho de 2026, mas as exchanges locais registraram queda de 78% no lucro operacional do primeiro semestre de 2026.
Carteiras P2P crescem 43x e autocustódia chinesa movimenta US$ 104,1 bilhões
Entre julho de 2025 e junho de 2026, a Chainalysis registrou US$ 104,1 bilhões em 18,1 milhões de transferências de stablecoins mantidas em autocustódia na China. A atividade doméstica de P2P respondeu por 59,1% do total, participação 3,5 vezes maior que a observada na janela de análise anterior. Em março de 2026, as transferências domésticas de stablecoin subiram US$ 4,9 bilhões, a maior alta mensal registrada na série da firma para o país.
Somando todos os trilhos cripto, a Chainalysis estima a economia chinesa do setor em pelo menos US$ 176 bilhões. Vale a ressalva metodológica que a própria firma faz: o número é uma estimativa construída sobre dados on-chain. Toda a atividade que passa por corretoras informais, mesas de balcão e liquidação fora da cadeia fica, por definição, fora do radar. Numa jurisdição onde o canal formal é ilegal desde 2021, esse piso tende a ser mais confiável que qualquer teto.
E o fato de a fatia doméstica do P2P ter saltado para 59,1% do volume diz algo incômodo para o controle de capital chinês: o dinheiro não está apenas saindo do país, está circulando dentro dele em trilhos que o regulador não enxerga.
Giro de 33,2x ao ano sugere stablecoin como capital de giro, não entesouramento
O dado mais revelador do relatório não é o volume, e sim a rotação. Cada stablecoin movimentada na China trocou de mãos 33,2 vezes por ano, mais de três vezes a média global de 9,3, segundo a Chainalysis. Giro alto costuma indicar uso transacional: capital de giro, pagamento a fornecedor, remessa entre contrapartes que não confiam no sistema bancário local. A stablecoin deixa de ser reserva de valor e passa a funcionar como dinheiro de operação, o que explica por que a demanda resiste a quatro anos de proibição formal.
A leitura, porém, merece disciplina analítica. Velocidade de giro elevada comporta interpretações menos nobres: pode refletir tanto adoção legítima como encadeamento de transferências destinado a dificultar rastreamento. O relatório não decompõe o fenômeno por tipo de contraparte, e afirmar qual das duas explicações predomina seria hipótese de mercado, não fato verificado. O que os dados sustentam é mais modesto e ainda assim relevante: o ativo circula intensamente, o que é incompatível com a tese de que os usuários chineses apenas estocam dólar digital debaixo do colchão.
Coreia do Sul soma US$ 449,1 bilhões, mas exchanges locais perdem 78% do lucro operacional
Do outro lado do Mar Amarelo, o contraste é o melhor material de análise disponível. A Coreia do Sul foi classificada pela Chainalysis como a maior criptoeconomia do Leste Asiático, com US$ 449,1 bilhões em volume, crescimento de 12,3% no ano até junho de 2026. A cifra equivale a cerca de 2,6 vezes a estimativa chinesa, num país com uma fração da população e um marco regulatório formal, com registro de exchanges, exigência de contas nominais e tributação da atividade.
O problema está na margem, não no fluxo. Os lucros operacionais das exchanges sul-coreanas caíram 78% no primeiro semestre de 2026, segundo o mesmo relatório. Volume em alta com lucro em queda livre é a assinatura clássica de compressão de spread e migração de execução: o usuário continua coreano, mas a ordem escorrega para plataformas globais e protocolos descentralizados, onde a taxa é menor. A exchange doméstica fica com o custo de conformidade e sem a receita que deveria justificá-lo. Regulação que captura a ponta regulada e perde a ponta que efetivamente movimenta dinheiro é um caso de estudo sobre o que acontece quando a regra fica atrás do trilho.
O que monitorar: fluxo P2P chinês, desenho regulatório sul-coreano e revisões metodológicas
Os próximos capítulos dependem de três frentes. A primeira é a persistência do fluxo P2P chinês: se a expansão de 43 vezes no número de carteiras mantiver o ritmo, a fiscalização de capital do país passa a lidar com um problema estrutural, não conjuntural. A segunda é o desenho regulatório sul-coreano, que precisará decidir se aperta a captura do fluxo doméstico ou aceita que a execução continue migrando para protocolos fora de sua jurisdição. A terceira frente são as próprias revisões metodológicas da Chainalysis, que define o piso dessas estimativas.
Há um limite factual que o relatório não resolve: a queda de 78% no lucro operacional é informada sem abertura de quais exchanges foram analisadas e sem a janela exata dentro do primeiro semestre de 2026, o que impede comparações mais finas entre plataformas. Para quem trata stablecoin como infraestrutura de pagamento, e não como aposta direcional, o recado é simples: o trilho funciona, a demanda existe e o guarda de trânsito apenas mudou de lugar.
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