Pagamentos transfronteiriços: Arábia Saudita deixa mBridge, projeto de CBDC liderado pela China, apo

Pagamentos transfronteiriços: Arábia Saudita deixa mBridge, projeto de CBDC liderado pela China, aponta Financial Times

A saída de Riad do mBridge, rede de moedas digitais de bancos centrais voltada a pagamentos internacionais, reacende o debate sobre alternativas de liquidação fora do dólar. O banco central saudita diz que já planejava encerrar a participação, mas o gesto ocorre em meio ao escrutínio crescente de Washington sobre projetos de infraestrutura de pagamento que dispensam os trilhos tradicionais.

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🏷️ MacroeconomiaPor Redação Radar Finanças
Publicado em: 21/09/2026 às 20:04 BRT
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O que o Financial Times noticiou sobre a saída saudita do mBridge

Segundo apuração do Financial Times, a Arábia Saudita deixou de participar do mBridge, projeto que reúne bancos centrais em torno de uma infraestrutura comum para liquidar pagamentos internacionais com moedas digitais. O banco central saudita, a SAMA, ingressou no mBridge como participante pleno em junho de 2024 e encerrou sua participação após concluir uma prova de conceito em 13 de maio de 2025, conforme o FT, que citou uma declaração da própria autoridade monetária.

A SAMA afirmou que já planejava encerrar sua participação, versão que empurra o episódio para o terreno da rotina operacional e não, necessariamente, para o da ruptura política. O movimento ocorre num momento em que a iniciativa era observada com atenção crescente por autoridades americanas, preocupadas com o desenho de uma rede que poderia reduzir a dependência do sistema ancorado no dólar.

O relatório de pesquisa que sustenta esta matéria não traz valores nem volumes, e o Financial Times é a fonte identificada para o fato, com base em manifestação da SAMA. Em geopolítica monetária, comunicados oficiais costumam chegar depois, e frequentemente com redação mais suave do que o noticiário. A leitura mais imediata é que a saída saudita reforça o caráter politicamente sensível de qualquer projeto de infraestrutura de pagamento que ambicione operar fora dos trilhos tradicionais.

Por que o mBridge incomoda Washington e o que está em jogo na liquidação fora do dólar

O mBridge foi estabelecido em 2021 por meio de uma colaboração entre o Centro de Inovação do Banco de Compensações Internacionais (BIS) e os bancos centrais da China, de Hong Kong, da Tailândia e dos Emirados Árabes Unidos, com o objetivo de tornar mais rápidos e baratos os pagamentos transfronteiriços. Em vez de usar uma única stablecoin, a plataforma permite que os bancos centrais participantes emitam e realizem transações em suas próprias moedas digitais em um registro compartilhado, inclusive para pagamentos internacionais e operações de câmbio.

O projeto continuou a ser desenvolvido sob o BIS até outubro de 2024, quando a organização o transferiu aos bancos centrais participantes, após o mBridge atingir o estágio de produto mínimo viável. O então gerente-geral do BIS, Agustín Carstens, disse que a saída do BIS não foi motivada politicamente. Ainda assim, o arranjo atraiu o escrutínio de autoridades americanas.

Um relatório de 2024 da Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China afirmou que o mBridge poderia eventualmente oferecer um sistema alternativo de liquidação transfronteiriça para países que buscam contornar as sanções dos Estados Unidos. A promessa é de eficiência; o risco, do ponto de vista americano, é de fragmentação. Quem opera a infraestrutura de liquidação define o alcance das sanções e a visibilidade sobre os fluxos. Por isso, qualquer arranjo que permita a dois países liquidar comércio sem passar por bancos correspondentes em dólar tende a ser lido menos como inovação de back-office e mais como peça de política externa.

A saída saudita, se confirmada nos desdobramentos oficiais, indica que Riad prefere não pagar esse custo diplomático neste momento, ainda que a SAMA apresente o encerramento como decisão já planejada.

Petrodólar, debate de de-dollarização e o lugar singular da Arábia Saudita

A Arábia Saudita ocupa posição singular nesse tabuleiro. É um dos maiores exportadores de petróleo do mundo e um dos pilares históricos do arranjo em que a commodity é precificada e liquidada em dólar. Qualquer sinal de que Riad testa alternativas de liquidação mexe com o nervosismo de quem acompanha o debate sobre de-dollarização, mesmo quando o gesto é apenas exploratório.

Vale separar retórica de balanço. A narrativa de que o dólar estaria prestes a perder seu papel central costuma avançar mais rápido do que os dados. Reservas, faturamento de comércio e profundidade dos mercados de títulos americanos seguem concentrando uma liquidez que nenhuma plataforma nova replica em escala. Ao mesmo tempo, projetos como o mBridge funcionam como sinal de que a busca por redundância não é fantasia: é seguro contra risco político.

O que isso significa para o Brasil

Para o Brasil, o episódio é leitura de contexto, não de pregão. O Drex avança em trilhos domésticos e em discussões de interoperabilidade, enquanto o Banco Central mantém a política monetária ancorada na inflação e na credibilidade fiscal.

A disputa por infraestrutura de pagamento não altera a Selic nem a curva de juros futuros no curto prazo, mas informa o pano de fundo no qual o país negocia com parceiros como a China. Em um ano marcado por disputa fiscal e por cautela do Banco Central na ancoragem das expectativas, a geopolítica monetária entra no radar menos como gatilho de preço e mais como variável de risco de cauda.

Confirmação oficial e próximos capítulos a acompanhar

O primeiro item da agenda é a evolução dos comunicados oficiais. A SAMA já se manifestou ao Financial Times dizendo que planejava encerrar a participação; agora, investidores e analistas devem acompanhar eventuais posicionamentos do BIS e do próprio governo saudita, além de atualizações do FT.

O segundo é o desenho final do mBridge sem Riad. Se o projeto seguir com a China e demais parceiros, a pergunta relevante deixa de ser quem entrou ou saiu e passa a ser qual será o alcance real de liquidação e quais moedas de fato circularão pela plataforma. Sem números de volume, qualquer projeção de impacto sobre o dólar é especulação.

O terceiro é a leitura de Brasília e da Faria Lima sobre o tema. A conta, como sempre, sobra para quem não estava na mesa de negociação.

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