Tarifaço de Trump atinge só 18% das exportações brasileiras e não altera superávit, mostram dados

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre importações atinge apenas 18% das exportações brasileiras para o mercado americano, segundo dados compilados por especialistas em comércio exterior. A medida, que aplica alíquota-padrão de 25% e chega a 50% em 24% dos produtos tarifados, não deve produzir efeito relevante sobre o superávit comercial agregado do Brasil em 2026.

Os setores mais expostos às sobretaxas são máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis. Em contrapartida, aeronaves, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja ficaram fora do alcance das novas tarifas, preservando os principais itens da pauta exportadora brasileira.

O dólar comercial fechou a R$ 5,07 em 21 de julho de 2026, com recuo de 1,12% em relação ao fechamento anterior de R$ 5,13. O movimento cambial sugere baixa preocupação do mercado com os desdobramentos da medida protecionista americana sobre a economia brasileira.

Como isso afeta seu bolso?

O impacto do tarifaço sobre o consumidor brasileiro tende a ser indireto e limitado. Como os EUA representam apenas 9,4% das exportações totais do Brasil, e as commodities — carro-chefe da pauta — foram poupadas, a pressão sobre o câmbio e a inflação deve ser contida. O IPCA de junho registrou variação de 0,16%, enquanto o CDI mensal ficou em 0,74%, ambos indicadores que não refletem, até o momento, contaminação relevante vinda do choque tarifário externo.

Para investidores com exposição a siderúrgicas, o quadro exige atenção seletiva: USIM5 subiu 4,04% no dia, cotada a R$ 8,49 com volume de 6,62 milhões de negócios, enquanto GGBR4 recuou 0,04%, a R$ 23,61, com volume de 2,85 milhões.

Balança bilateral: déficit de US$ 1,5 bilhão no semestre

As trocas comerciais entre Brasil e Estados Unidos somaram US$ 36,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 12,8% ante o mesmo período de 2025. As exportações brasileiras recuaram 13%, totalizando US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações caíram 12,5%, para US$ 19 bilhões. O resultado foi um déficit bilateral de US$ 1,5 bilhão no período.

O dado de junho trouxe um sinal pontual de recuperação: as exportações cresceram 3,7% no mês, alcançando US$ 3,47 bilhões, sustentadas por alta de 11% nos preços médios. O volume embarcado, no entanto, caiu 6,6%, indicando que o ganho foi puramente de preço, não de quantidade.

Indicador1º Semestre 2026Variação vs. 2025
Corrente de comércio Brasil-EUAUS$ 36,4 bi-12,8%
Exportações brasileirasUS$ 17,4 bi-13,0%
Importações brasileirasUS$ 19,0 bi-12,5%
Saldo bilateral-US$ 1,5 biDéficit

Por que o impacto é limitado?

Lia Valls, pesquisadora do Ibre-FGV, destaca que a participação dos EUA nas exportações brasileiras caiu para cerca de 9,4%. “O Brasil tem déficit com os EUA, não superávit. Isso reduz a vulnerabilidade a retaliações e explica por que o efeito agregado sobre a balança comercial é pequeno”, afirma.

José Augusto de Castro, presidente da AEB, converge com a avaliação e descarta efeito relevante sobre o superávit comercial consolidado. O Boletim Focus projeta superávit comercial mediano de US$ 365,26 bilhões para 2026, com média de US$ 369,47 bilhões.

A concentração geográfica do impacto também chama atenção: São Paulo e Santa Catarina respondem por 52% do valor exportado sob as novas tarifas, o que torna o choque localizado em poucos polos industriais.

Contexto e reação

  1. Abril de 2025: EUA anunciam revisão ampla de tarifas sob a Seção 301 do Trade Act, mirando setores industriais estratégicos.
  2. Janeiro de 2026: Entra em vigor a alíquota-padrão de 25%, com picos de 50% para produtos selecionados.
  3. Julho de 2026: Dados do primeiro semestre confirmam que commodities brasileiras seguem isentas e que o déficit bilateral persiste.
  4. Reação institucional: Apex Brasil anuncia plano de R$ 130 milhões para diversificar destinos de exportação, reduzindo dependência do mercado americano.

A Lei da Reciprocidade, em tramitação no Congresso, e eventuais contestações na OMC permanecem como instrumentos de defesa comercial à disposição do governo brasileiro, embora não tenham sido acionados até o fechamento desta edição.

Nota: As cotações de GGBR4 e USIM5 foram capturadas em 21 de julho de 2026, às 16:16 BRT. O dólar comercial refere-se ao fechamento do mesmo dia. Projeções do Boletim Focus são da última edição disponível.

Foto: Unsplash (Licença Comercial)

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