O diretor de Política Monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que o impacto da Inteligência Artificial (IA) sobre a inflação representa uma preocupação maior do que os efeitos do fenômeno climático El Niño. A declaração insere um novo vetor de risco no radar da autoridade monetária, em um momento em que o Boletim Focus já projeta inflação acima do centro da meta e juros básicos em patamar elevado para 2026.
Segundo Galípolo, enquanto o El Niño tem impactos sazonais e localizados — concentrados sobretudo nos setores agropecuário e energético —, a IA representa uma transformação estrutural que pode afetar cadeias produtivas, mercado de trabalho e margens de lucro de forma global e persistente. A fala foi capturada durante cobertura de evento sobre política monetária e conjuntura econômica.
O novo vetor de pressão inflacionária
A avaliação de Galípolo reposiciona o debate sobre os determinantes da inflação no Brasil. Até então, os choques climáticos — como o El Niño — ocupavam o centro das preocupações do BC para o curto prazo, especialmente pelos efeitos sobre safras agrícolas e tarifas de energia. Agora, a IA entra como um fator de médio e longo prazo que pode atuar em múltiplas frentes:
- Pressão de demanda: a automação e a adoção em massa de IA podem acelerar o consumo de bens e serviços intensivos em tecnologia, gerando desequilíbrios setoriais de oferta e demanda.
- Recomposição de margens: empresas que investem pesadamente em IA podem repassar custos aos preços finais para preservar rentabilidade.
- Realocação de mão de obra: a substituição de postos de trabalho por sistemas automatizados pode gerar pressões salariais em setores de alta especialização e desemprego estrutural em outros, com efeitos ambíguos sobre a inflação de serviços.
A tese central é que o mercado pode estar subestimando o impacto inflacionário da automação e da difusão tecnológica — um fenômeno que, ao mesmo tempo que eleva produtividade no longo prazo, pode gerar pressões de custos no curto e médio prazos.
Focus já sinaliza juros elevados
O Boletim Focus mais recente, com data de referência de 17 de julho de 2026, já captura um ambiente de inflação resistente e política monetária contracionista. As medianas das projeções do mercado para 2026 são:
| Indicador | Projeção Mediana (2026) |
|---|---|
| IPCA (% a.a.) | 5,15% |
| Selic (% a.a.) | 14,00% |
| Câmbio (R$/US$) | 5,20 |
| PIB (crescimento %) | 1,99% |
O IPCA projetado de 5,15% a.a. fica acima do centro da meta de inflação, o que, combinado com a Selic mediana de 14% a.a., sinaliza um aperto monetário prolongado. O IPCA acumulado em 12 meses, dado mais recente disponível, está em 1,94% — ainda dentro da banda, mas com trajetória de aceleração esperada pelo mercado.
Cenário para a Política Monetária
A fala de Galípolo sugere que o Banco Central pode incorporar esse risco adicional — o impacto inflacionário da IA — em suas projeções oficiais. Se confirmado, isso tende a manter a política monetária contracionista por mais tempo do que o inicialmente precificado pelo mercado.
Para o investidor, o cenário tem implicações diretas. A permanência da Selic em patamares elevados (14% a.a. na mediana do Focus) beneficia ativos de renda fixa pós-fixada, como títulos atrelados ao CDI e ao IPCA+. Por outro lado, pressiona os valuations de empresas de crescimento e tecnologia listadas na B3, que são mais sensíveis a taxas de desconto elevadas.
A declaração de Galípolo também abre espaço para que o mercado reavalie o chamado “prêmio de risco tecnológico” embutido nas curvas de juros futuros. Se a IA for formalmente incorporada como um fator estrutural de pressão inflacionária pelo BC, a expectativa é de que a inclinação da curva de juros possa se ajustar para cima nos vértices mais longos.















